Empresa-filha da Unicamp gera impacto social com aulas de dança para cegos e surdo-cegos em Campinas

Na imagem, há um homem e uma mulher dançando em um espaço de dança. Fim da descrição.

Empresa-filha da Unicamp gera impacto social com aulas de dança para cegos e surdo-cegos em Campinas

O Sinestesia, criado por Keyla Ferrari Lopes, mestra e doutora em atividade física adaptada pela Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp, oferece aulas gratuitas de dança, música e poesia para pessoas cegas e surdo-cegas da Região Metropolitana de Campinas (RMC). 

Texto: Nice Bulhões – Comunicação Compartilhada | Foto: Fábio Barella – Divulgação

O projeto “Sinestesia: Dança e Poesia Além dos Sentidos” é fruto de um sonho de Keyla Ferrari Lopes, egressa da Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp e fundadora de uma empresa-filha da Universidade que promove a inclusão por meio de eventos artísticos. O projeto foi inspirado na novela “Sol de Verão”, da Globo, em que o ator Tony Ramos interpretava um surdo e a atriz Irene Ravache sua professora. Naquela época, com 7 anos, Lopes queria ajudar as pessoas com alguma limitação. 

O tempo passou. Em 1992, em uma viagem a Londres, ficou encantada com o trabalho de uma bailarina em cadeira de rodas. Ao retornar para o Brasil, enquanto lecionava dança para crianças, acolheu seu primeiro aluno surdo e a irmã dele que era cega. Então, Lopes lembrou-se da novela e não parou mais: virou empreendedora e, além de, mãe de dois meninos, é paciente oncológica em cuidados paliativos, escritora de seis livros infantis e desenvolveu projetos de dança adaptativa.

Criado neste ano, o “Sinestesia” fará sua finalização anual com a apresentação de 17 alunos no próximo dia 8 de novembro, no CIS-Guanabara (Centro Cultural da Unicamp), localizado no complexo da antiga Estação Guanabara, patrimônio histórico de Campinas. O CIS-Guanabara é um dos locais onde as aulas acontecem, com apoio da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC) da Unicamp, que cede o espaço. O outro local de aulas é o Centro Cultural Louis Braille de Campinas. O projeto conta com o financiamento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), operacionalizada pelo Governo de São Paulo por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas (SCEIC-SP). Mas, sua continuidade depende ainda de financiamento, seja público ou privado.

Inicialmente, o projeto ofereceu aulas de dança adaptada, música e poesia apenas para mulheres com deficiência visual, mas depois abriu para o público masculino com cegueira devido a procura. As aulas são ministradas por Lopes, referência na dança inclusiva e na difusão da Língua Brasileira de Sinais (Libras) como meio de comunicação e acessibilidade cultural e artística. Além de Lopes, outro guia-intérprete de sinais dá assistência e apoio durante as aulas do projeto. Ele também conta com as aulas de música, ministradas pelo multiartista Coré Valente, graduado em Dança pelo Instituto de Artes (IA)  Unicamp, e de expressão corporal, com o artista Sílvio Leme.

História conectada com a Unicamp

A conexão do Sinestesia com a Universidade Estadual de Campinas é intrínseca à própria identidade da empresa-filha, moldada na formação acadêmica e de vivência de Lopes, mestra e doutora em atividade física adaptada pela Faculdade de Educação Física (FEF) da Unicamp. Isto porque o projeto conta com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC) da Universidade. 

A decisão de realizar este ano o cadastro como empresa-filha da Unicamp, no site da Agência de Inovação Inova Unicamp, reitera o vínculo de Lopes com a Universidade. Para ela, o cadastro representa um reconhecimento e uma retribuição à instituição que tanto contribui para sua trajetória.

Consciência corporal, inclusão e quebra de barreiras

O projeto “Sinestesia: Dança e Poesia Além dos Sentidos” tem o propósito de atender pessoas com cegueira, baixa visão e surdo cegueira, dando a elas acesso à música, à dança e à poesia em encontros dirigidos pela bailarina,  que fez pesquisa em estágio de pós-doutorado em Estudos Culturais e Diversidade pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Obras de poetas como Cora Coralina, Cecília Meireles e Clarice Lispector são apresentadas aos alunos durante os encontros, que desenvolvem também a comunicação tátil por meio de Libras. O público-alvo são as pessoas interessadas com deficiência visual a partir dos 18 anos. O intuito é mostrar que os cegos também podem dançar. 

Um exemplo disso, é de Gisele do Nascimento Pacheco, cega ao nascer devido a uma retinopatia da prematuridade (ROP), doença que se desenvolve nos olhos de recém-nascidos prematuros. Ela conheceu o projeto pela empreendedora por meio de um convite da Associação Hortolandense dos Deficientes Visuais. “Fiquei encantada e logo quis participar das aulas na Secretaria de Cultura de Hortolândia, sendo que já me apresentei em público, e, em seguida, me inscrevi no Sinestesia.” 

Pacheco também é a atleta da natação pela Associação Paraolímpica de Campinas (APC), sendo considerada uma das quatro melhores do país até 2022, quando sofreu uma trombose venosa cerebral (TVC), doença causada pela formação de coágulos ou trombos nas veias do cérebro. Ela já recuperou 99% de seus movimentos e comenta que a dança foi importante nesse processo. “Essas aulas de dança me trouxeram uma consciência corporal muito grande e a Keyla consegue nos orientar. Sem ela, não me arriscaria dançar.” 

Ponte para o diálogo e inspiração

“Procuro produzir uma mudança cultural na forma como o público enxerga meus alunos deficientes e encara a arte e a deficiência”, explica Lopes. “A dança é democrática e inclui a todos, faltando apenas as pessoas tirarem as vendas dos olhos para promover o fim do preconceito e da discriminação”.  A abordagem pedagógica do projeto inclui rodas de conversa e a leitura de poesias que inspiram as coreografias, oferecendo um ambiente onde a arte se torna uma ponte para o diálogo e a conexão entre diferentes mundos sensoriais, intelectuais e motores.

Parte da metodologia pode ser conferida no livro “Dance com ele”, de autoria de Lopes, publicado pela editora Abarros, com prefácio de Carlinhos de Jesus. “A dança é uma linguagem universal que, aliada à Libras, amplia as possibilidades de comunicação para surdos, ouvintes e todas as pessoas independente de sua condição motora sensorial ou intelectual, promovendo a verdadeira inclusão”, explica. 

Em seu último livro, ‘O Jovem Desafiador’, a empreendedora recebeu o prêmio de Melhor Abordagem Infantil na Galery Espanha e Portugal, há cerca de um mês. A edição em alemão da obra já está no prelo com selo de coedição entre a Barros Editora, responsável pela publicação original no Brasil, e a alemã Verlag Editora. O livro, que foi inspirado na infância de um dos filhos da escritora, expõe os desafios vividos por crianças com Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) e Transtorno de Déficit de Atenção (TDA), abordando questões escolares, relacionamentos sociais e familiares, que podem ser mal-interpretados como falta de limites ou agressividade. 

Apadrinhamento financeiro 

Enquanto projeto inclusivo, o “Sinestesia: Dança e Poesia Além dos Sentidos” busca madrinhas, padrinhos e parceiros que possam contribuir com a sustentabilidade financeira da iniciativa. 

“Encontrar apoiadores comprometidos e construir uma base estável de financiamento é hoje um dos nossos focos para garantir que as aulas para esse público sejam oferecidas em médio e longo prazo, inclusive buscando ampliar o atendimento”, explica Keyla Lopes.