17 nov Inovação com os pés no chão: o desafio de melhorar com método
Mais do que apostar em grandes tecnologias, inovar é compreender o próprio contexto e promover melhorias consistentes e sustentáveis nos processos e nas estratégias da empresa
Este artigo foi produzido pela FM2S, empresa parceira do ecossistema da Unicamp e patrocinadora do 20º Encontro Anual Unicamp Ventures, principal evento de conexão das empresas-filhas da Unicamp.
Artigo por: Virgilio Marques dos Santos* – FM2S | Foto: Freepik
“Você precisa inovar”. “Só a tecnologia fará a empresa crescer de modo sustentável e lucrativo”. “Não adianta ficarmos fazendo do mesmo jeito que fizeram em 1970”. “Quem não inova, não cresce”. Para não esgotar sua paciência, caro(a) leitor(a), vou parar com os clichês. E começo assim porque foi exatamente desse jeito que eu pensava quando saí da faculdade e fui trabalhar com meu pai.
Naquela época, eu era uma máquina de lugares-comuns e de conhecimento raso sobre inovação. Me alimentava basicamente de palestras, TED Talks, revistas e jornais de negócios. Achava que, para crescer, bastava copiar o que as grandes empresas dos países desenvolvidos faziam. Não havia adequação dos conceitos à minha realidade: apenas repetia como papagaio o que falavam os grandes executivos na imprensa. Faltava o principal: entender o nosso contexto. Faltava chão.
Diante da definição, inovar é algo muito mais amplo e menos sensacionalista do que os exemplos propagandeados na mídia. No contexto da pequena fábrica da nossa família, naquela época, inovação poderia ser o ganho de 30% de produtividade alcançado apenas ao alterar o sistema de aspiração de um equipamento. E não, necessariamente, um novo produto que ninguém tenha ou uma máquina que apenas milhões de dólares comprariam.
Entre o ideal e o possível
Vinte anos depois, tenho a clara noção de como esse modelo mental não me ajudou em nada – ou pior, me frustrou. Quando falamos em inovação, deveríamos começar pela definição operacional: implementação de um produto, processo, método de marketing ou método organizacional que é novo ou significativamente melhorado. E, por “significativamente melhorado”, não há indicadores ou padrões únicos.
Depois do conceito, vêm as perguntas: como, afinal, inovar? É tentativa e erro? É investimento? É ter os melhores cérebros? É transferir tecnologias da universidade para o setor produtivo?
A resposta não está em slogans, mas em métodos. Há contextos em que a tentativa e erro funciona; outros, em que o investimento pesado é essencial. Em minha experiência, o método científico, especialmente o Ciclo PDSA (Planejar, Executar, Estudar, Agir), continua sendo o mais eficaz para desenvolver e testar mudanças que realmente melhorem os resultados.
Inovar exige também algo pouco falado: tolerância à frustração. Errar dói. Dói no caixa, na autoestima, na confiança. Cada tentativa consome não apenas dinheiro, mas credibilidade, confiança e até esperança. Ao longo de minha trajetória, foram incontáveis as vezes que ouvi críticas às minhas escolhas: “Por que você não arruma um emprego?”; “Pare de brincar de criar empresas, você não leva jeito”. Ou amigos que toparam começar um projeto comigo e, ao saber que ficariam alguns meses sem salário, desistiram.
Há ainda o contexto econômico peculiar do Brasil. Um exemplo: se deixo R$ 1 milhão parado na renda fixa, com 10% de juros reais ao ano, já saio no lucro de R$ 100 mil. Mas, se destino esse mesmo valor a um projeto inovador, o retorno precisa compensar não apenas o investimento, mas também o que se deixa de ganhar na renda fixa. E o obstáculo é grande: segundo o Massachusetts Institute of Technology (MIT), cerca de 95% dos projetos de Inteligência Artificial (IA) Generativa – a moda do momento – fracassam. Ou seja, em um ano, quem investiu, na maioria dos casos, perdeu o R$ 1 milhão aplicado. Para tentar um novo projeto depois da falha, será preciso recuperar não só o investimento inicial, mas também os rendimentos que deixaram de existir — algo como R$ 2,3 milhões em dois anos.
Desafiador? Muito. No entanto, apesar dos percalços, aprendi que inovar é importante, mas melhorar – produtos, processos e estratégias – é vital. A melhoria contínua, atrelada a um investimento possível e a objetivos claros, traz resultados sustentáveis — especialmente para pequenas e médias empresas, que não contam com o fôlego das grandes corporações. Desde que passei a aplicar essa lógica, mais adequada ao contexto de uma empresa de capital fechado e sociedade por quotas, o crescimento anual do meu negócio gira em torno de 60%.
Inovar é essencial, sim – mas só faz sentido quando cabe na sua realidade. Afinal, o verdadeiro progresso não é o que brilha nas manchetes, e sim o que se sustenta no tempo.
*Virgilio Marques dos Santos é sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, empresa-filha da Unicamp, e doutor, mestre e graduado pela Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM) da Unicamp
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Sobre o Encontro Anual Unicamp Ventures

O Encontro Anual Unicamp Ventures é, há 20 anos, o principal evento e ponto de encontro dos empreendedores das empresas-filhas da Unicamp com outras empresas, alunos e professores aspirantes ao empreendedorismo. A primeira edição do evento foi realizada em 2006 e deu origem ao grupo de empreendedores Unicamp Ventures (UV). Desde então, o encontro é realizado anualmente pela Agência de Inovação da Universidade Estadual de Campinas (Inova Unicamp) com o apoio do UV, chegando à 20ª edição em 2025.
Os patrocinadores da 20ª edição do Encontro Anual Unicamp Ventures são:
- ClarkModet
- FM2S
- IOU Unicamp
- Neger Telecom
- QualiSign
- PALAS
O 20º Encontro Anual Unicamp Ventures é organizado por:
- Unicamp Ventures
- Agência de Inovação Inova Unicamp
- Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Confira tudo o que aconteceu no 20º Encontro Anual Unicamp Ventures neste link.
O que são empresas-filhas da Unicamp?
As empresas-filhas da Unicamp, conforme a Resolução nº 30/2025, publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo, são os empreendimentos criados por alunos, egressos e profissionais que têm ou tiveram vínculo formal com a Unicamp; ou então as startups incubadas e graduadas na Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp); ou ainda as empresas spin-off acadêmicas, criadas a partir de resultados de pesquisas e do conhecimento produzido na Unicamp, independentemente de consistirem em ativos de propriedade intelectual protegidos ou não.
A empresa que desejar se cadastrar como filha da Unicamp deverá submeter sua solicitação à Inova Unicamp, neste formulário.