Startup paulista cria levedura para etanol de milho e se prepara para escala-piloto

Mãos com luvas azuis de nitrilo seguram uma placa de Petri aberta em uma bancada de laboratório. A placa contém meio de cultura com inúmeras colônias pequenas e esbranquiçadas de levedura espalhadas pela superfície; em parte da placa, o fundo aparece em tom verde-azulado, criando contraste com as colônias claras. A outra mão segura a tampa transparente da placa. Ao fundo, desfocadas, há outras placas de Petri com meio de cultura amarelado e a manga de um jaleco branco. Fim da descrição.

Startup paulista cria levedura para etanol de milho e se prepara para escala-piloto

A Bioinfood, empresa-filha da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desenvolveu uma levedura 100% nacional para etanol de milho, capaz de elevar o rendimento das usinas sem ampliar a área de plantio

Texto: Roseli Andrion – Fapesp | Foto: Bioinfood

Ampliar a produção nacional de etanol de milho sem a necessidade de expandir a área de plantio agrícola é o potencial que se abre para o Brasil com o desenvolvimento de uma levedura 100% nacional. Criada pela biotech paulista Bioinfood, a nova linhagem biotecnológica promete elevar o rendimento das usinas ao extrair mais combustível da mesma quantidade de grãos. O avanço busca suprir uma demanda estratégica de um setor que encerrou a safra 2025/2026 com 10,17 bilhões de litros do biocombustível produzidos no país, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Dentro dos tanques de fermentação, quem ainda converte o açúcar em combustível é a Saccharomyces cerevisiae, a mesma espécie de fungo microscópico utilizada tradicionalmente no fermento de pão. No entanto, o biólogo Gleidson Silva Teixeira, diretor científico e cofundador da startup paulista Bioinfood, aponta uma lacuna crítica nessa cadeia produtiva: nenhuma das linhagens de levedura atualmente usadas nas usinas brasileiras foi desenvolvida no país. Por isso, os produtores precisam pagar caro para importá-las.

Para mudar esse cenário de dependência tecnológica a cada safra, o pesquisador e outros fundadores da biotech (startup de biotecnologia) paulista, localizada em Campinas, criaram uma levedura “brasileira” customizada para a indústria do etanol de milho. O projeto contou com o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP e do Sebrae. A solução está agora na fase de transição da escala de laboratório para a escala-piloto – etapa intermediária que permite testar e aperfeiçoar o processo biotecnológico em tanques maiores, em condições muito próximas às encontradas na produção industrial real.

A tecnologia foi apresentada por Osmar Netto, cofundador da Bioinfood, em palestra durante a FAPESP Week Países Baixos – simpósio científico internacional promovido pela FAPESP e pelo Conselho de Pesquisa dos Países Baixos (NWO, na sigla em neerlandês) na Universidade de Leiden, realizado entre os dias 27 e 29 de outubro.

Ajustes finos

De acordo com Teixeira, os resultados experimentais em laboratório indicam um forte potencial competitivo para a linhagem nacional, embora ainda sejam necessários ajustes finos. “Ela ainda requer melhorias, mas isso eu quero fazer com o cliente. Não quero fazer sozinho”, afirmou o pesquisador.

No milho, a glicose não está livre e pronta para a fermentação – diferentemente do que ocorre no caldo de cana-de-açúcar. O grão precisa ser moído, misturado à água, aquecido e submetido a etapas de tratamento com enzimas (proteínas especializadas que atuam como tesouras biológicas para quebrar as longas cadeias de amido em açúcares simples e fermentáveis). A levedura, então, consome essa glicose e a converte em etanol e gás carbônico. O rendimento mede exatamente quanto desse açúcar vira combustível, e a meta de Teixeira é produzir mais litros com a mesma quantidade de grãos e sem exigir expansão da infraestrutura fabril existente.

Para alcançar esse objetivo, uma das melhorias que o cientista pretende desenvolver em parceria com os clientes é uma linhagem capaz de realizar a fermentação em temperaturas um pouco mais elevadas, reduzindo custos com resfriamento. “O ponto de partida é que a linhagem tenha uma boa base genética, porque o ajuste final depende do processo de cada usina”, disse Teixeira.

Quem fabrica e quem vende

Criar a linhagem em tubo de ensaio representa apenas metade do caminho. A outra metade consiste em fabricá-la em escala industrial contínua. “Além de desenvolver uma levedura, eu depois preciso fornecê-la em escala”, observou Teixeira, lembrando que uma única usina de grande porte pode consumir até 50 toneladas do insumo biológico por mês. Por isso, em 2022, a Bioinfood firmou parceria com uma fábrica de leveduras que, até então, produzia exclusivamente para a panificação – mercado de maior volume, porém de menor valor agregado – e que agora planeja diversificar o portfólio fornecendo biotecnologia para o setor sucroenergético.

A aliança estratégica com essa fábrica permitirá à Bioinfood avançar na validação prática da linhagem e dispor de uma estrutura robusta para produzi-la em massa. Em contrapartida, a fábrica parceira poderá incluir a nova levedura voltada ao etanol de milho em seu catálogo comercial e oferecê-la diretamente a diferentes usinas do país.

Ainda assim, a startup prevê customizações contínuas de acordo com a realidade operacional de cada planta industrial. “É como um aplicativo: depois de pronto, ele pode receber atualizações, melhorias e ajustes, sem exigir que todo o processo seja refeito a cada novo cliente”, comparou o biólogo.

Mercado crescente

A Conab estima que a safra 2025/2026 produziu um total de 37,5 bilhões de litros de etanol no Brasil. O milho já responde por pouco mais de 27% desse volume nacional, registrando um crescimento expressivo de 29,8% em relação ao ciclo anterior. Em sentido oposto, a produção a partir da cana-de-açúcar recuou 6,9%, somando 27,33 bilhões de litros. Do volume derivado do milho, a estimativa abrange 3,974 bilhões de litros de etanol anidro (utilizado na mistura obrigatória com a gasolina) e 6,198 bilhões de litros de etanol hidratado (comercializado diretamente nas bombas dos postos).

Entidades do setor – como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), a União Nacional do Etanol de Milho (Unem) e a Bioenergia Brasil – projetam que a produção total do combustível deve atingir a marca de 40 bilhões de litros na safra 2026/2027, o que representaria um salto de cerca de 2,5 bilhões de litros sobre o ciclo anterior. A título de comparação, nos Estados Unidos – maiores produtores mundiais do combustível a partir do milho –, a Administração de Informação de Energia (EIA) registrou a produção de 16,49 bilhões de galões em 2025, o equivalente a cerca de 62,4 bilhões de litros.

Apesar de o Brasil ocupar o posto de segundo maior produtor global de etanol, o parque industrial do país ainda depende substancialmente de insumos e tecnologia biológica estrangeira, ponderou Teixeira. “O Brasil tem condições de desenvolver levedura própria e os Estados Unidos, maior mercado para leveduras de etanol de milho, são até um destino possível de exportação.”

O pesquisador explicou que existem hoje três modelos operacionais de usinas no Brasil: as dedicadas exclusivamente ao milho (full corn, no padrão norte-americano); as flexíveis (flex), que processam cana por oito a nove meses durante a safra e milho no restante do ano aproveitando que o grão pode ser estocado; e as mistas, que operam com ambas as matérias-primas de forma simultânea ao longo de todo o ano.

A conta econômica do setor, contudo, não fecha apenas com a venda do biocombustível. O processamento do milho gera coprodutos de alto valor comercial, como óleo vegetal e os grãos secos de destilaria com solúveis — conhecidos pela sigla em inglês DDGS (Distillers Dried Grains with Solubles), um farelo altamente concentrado em proteínas utilizado na nutrição de bovinos, suínos, aves e animais de estimação.

Teixeira prevê que o mercado interno para o DDGS pode atingir um ponto de saturação no futuro, apontando o mercado externo como alternativa natural para absorver o excedente produtivo. Nos Estados Unidos, o volume exportado de 11,6 milhões de toneladas de DDGS em 2025 representou 36% de toda a produção doméstica do coproduto, segundo dados da Renewable Fuels Association. Nesse cenário de concorrência acirrada, sobrevive a usina que obtiver maior margem operacional. “A vantagem está com quem extrai mais etanol do mesmo milho ou produz a custo menor. E é aí que a levedura entra”, ressaltou.

Do laboratório à fábrica

A trajetória da deep tech (empresa emergente baseada em descobertas científicas de alta complexidade) tem raízes na academia. Teixeira fez mestrado e doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde também atuou como pesquisador colaborador liderando uma equipe dedicada ao desenvolvimento de ferramentas moleculares para o melhoramento genético de leveduras. A fundação da Bioinfood, em 2018, viabilizou-se após a aprovação de um projeto inicial no programa PIPE da FAPESP, que financiou as etapas primordiais de pesquisa. Posteriormente, uma nova concessão do PIPE permitiu validar o modelo de negócio e criar os primeiros protótipos funcionais.

No início de suas atividades, a startup direcionou o foco para o segmento de alimentos e bebidas, impulsionada pela vivência de um dos sócios no setor cervejeiro – origem que inspirou a escolha do nome em inglês. Nos últimos três anos, no entanto, a demanda crescente do mercado redirecionou a atuação da empresa para as áreas de biocombustíveis e agronegócio.

Atualmente, a Bioinfood opera no modelo de pesquisa e desenvolvimento (P&D) sob demanda para indústrias globais desses setores, somando projetos em oito países – incluindo Estados Unidos, França, Áustria, Emirados Árabes Unidos e Paraguai. “A proposta não é ter leveduras de prateleira à espera de compradores. Em vez disso, desenvolvemos com a indústria para comercializar e ganhar junto”, reforçou o diretor científico.

Em um projeto recém-aprovado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a deep tech captou R$ 8 milhões em recursos. Além disso, foi contemplada no edital Tecnova III – São Paulo, uma iniciativa conjunta da Finep e da FAPESP que destina parte das verbas à estruturação de um plano de internacionalização. Para meados de 2027, a empresa projeta a inauguração de um laboratório próprio equipado com uma fábrica-piloto voltada à biotecnologia. Com a nova infraestrutura, a meta da Bioinfood é consolidar-se como a principal referência biotecnológica da América Latina no setor até 2030.